Monthly Archives: outubro 2017

Prêmio José Saramago para Julián Fuks

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O escritor brasileiro, filho de pais argentinos, foi distinguido pelo romance A Resistência, editado em 2015 pela Companhia das Letras.

Julián Fuks, escritor brasileiro de origem argentina, é o vencedor da edição deste ano do Prémio Literário José Saramago, pelo seu livro A Resistência. O anúncio foi feito esta quarta-feira em Lisboa pela Fundação Círculo de Leitores, que instituiu o prémio em 1999 a celebrar a atribuição, no ano anterior, do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

A Resistência, editado em 2015 pela Companhia das Letras, é o quarto livro do escritor nascido em São Paulo em 1981. É uma narrativa de ficção centrada na figura de um irmão adotivo de Fuks, chamado Emi.

Com este romance, o escritor e também crítico literário venceu, em 2016, o Prémio Jabuti, no Brasil, e viu-se colocado em 2.º lugar no Prémio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa.

Julián Fuks é o terceiro escritor brasileiro a vencer o Prémio José Saramago, depois de Adriana Lisboa (com Sinfonia em Branco, em 2003) e de Andréa del Fuego (com Os Malaquias, em 2011). O último galardoado, em 2015, foi o português Bruno Vieira Amaral, com As Primeiras Coisas.

O Prêmio Literário José Saramago tem periodicidade bienal e “distingue uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um escritor com idade não superior a 35 anos, cuja primeira edição tenha sido publicada em qualquer país da lusofonia, excluindo obras póstumas”, diz o regulamento.

Fonte: O Público

Semana do Livro e da Biblioteca de 2017

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Em homenagem a Semana do Livro e da Biblioteca, rememorada na Semana de 23 a 29 de outubro, trazemos à atenção obra Bibliotecas Brasileiras, de George Ermakoff, publicada em 2014. A publicação riquíssima em ilustrações apresenta uma síntese sobre a evolução do livro, seguida de um breve histórico do surgimento das primeiras bibliotecas brasileiras.

Ilustração 1 – Bibliotecas brasileiras

Destaca ainda variadas bibliotecas, a exemplo da Biblioteca Nacional, Biblioteca de Brasília, Biblioteca do Mosteiro São Bento da Bahia e do Rio, entre outras. Aqui na Bahia, salienta a Biblioteca Pública do Estado e a Biblioteca Infante do Dom Henrique, do Gabinete Português de Leitura de Salvador.

Ilustração 2 – Evolução da História do Livro

O Gabinete Português de Leitura, foi fundado em 02 de março 1863, por um grupo de portugueses residentes na Cidade do Salvador. A sua nova sede é instalada em 1918 na Praça da Piedade, onde se localiza até hoje, em seu interior encontramos a Biblioteca Infante Dom Henrique com acervo estimado em 25.000 volumes.

Ilustração 3 – Biblioteca Infante do Dom Henrique

Ilustração 4 – Biblioteca Infante do Dom Henrique

Criada em 13 de maio de 1811, a Biblioteca Pública […] “foi à primeira Biblioteca brasileira concebida em sua origem para atender ao público leitor. Idealizada pelo baiano Pedro Gomes Ferrão Castelo Branco.” Atualmente a Biblioteca funciona no bairro dos Barris, oferecendo a comunidade um acervo variado, atendendo desde os pequeninos, com o setor Infantil até o Pesquisador no setor de Obras Raras.

Ilustração 5 – Biblioteca Pública do Estado

 

Livro do mês: Outubro de 2017

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A Biblioteca Infante Dom Henrique destaca a obra História da 1ª República de Carlos Ferrão.
O livro apresenta um dos marcos da história política de Portugal, a implantação da República portuguesa que ocorreu em 5 de outubro de 1910.

A sociedade portuguesa do final do século XIX encontrava-se em quadro complexo, descrito como “o generalizado mal-estar social, a crise económica”, essas circunstâncias desenham um contexto que conduziu à queda da monarquia frente às influencias republicanas.

Após combates entre as forças resistentes e o revolucionários, a 5 de outubro de 1910 a República portuguesa foi proclamada. A nova experiência política trouxe consigo, entre outras mudanças, a lei eleitora da república que aumentava o quantitativo da população que poderia participar nas eleições. Foi implantado o governo provisório que passou por diversos governantes, até o golpe militar de 1926.

Fontes: ROLLO. Maria Fernada. Viva a República! Há 99 anos, a implantação da República em Portugal. Revista Ingenium, n. 113, set./out. 2009. Disponível em: <http://www.ordemengenheiros.pt/pt/centro-de-informacao/dossiers/historias-da-engenharia/viva-a-republica-ha-99-anos-a-implantacao-da-republica-em-portugal/>. Acesso em: 10 out. 2017.

PIRES, Ana Paula. As letras de uma revolução: a implantação da república em Portugal a 5 de outubro de 1910. Estudos Históricos Rio de Janeiro, v. 30, n. 61, p. 331-354, maio/ago., 2017
5 de outubro: Centenário da República 1910-2010. Disponível em: <http://5outubro.centenariorepublica.pt/> . Acesso em: 10 out. 2017.

 

Ilustração 1 – Capa da obra História da 1ª Republica portuguesa

 

Ilustração 2 – Personalidades de destaque período da 1ª república portuguesa

Ilustração 3 – Descritivo das Personalidades de destaque período da 1ª república portuguesa

 

Celebrando Camões, Recife

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José Rodrigues Paiva.
Celebrando Camões.

Recife: Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano, 2016, 82 p.

AGRADEÇO AO PROF. DOUTOR MANUEL FERRO, DA FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, A GENEROSA RESENHA QUE FEZ DO MEU LIVRO “CELEBRANDO CAMÕES”, PUBLICADA NA REVISTA ACADÊMICA “LIMITE” E QUE TRANSCREVO A SEGUIR:

 

Manuel Ferro
Universidade de Coimbra
ferro@fl.uc.pt

Quatro são os ensaios de fundo de José Rodrigues de Paiva reunidos no volume recentemente editado que se destina a celebrar o poeta maior da língua portuguesa, tal como na capa é de imediato sugerido, quer pelo título, quer pela ilustração que reproduz uma gravura de Forsell com desenho de A.-J. Desenne, da edição d’Os Lusíadas do Morgado de Mateus, de 1817. O aparecimento deste livrinho impõe-se agora num momento determinante da carreira do autor. Quando se multiplicam as homenagens que lhe são dirigidas, consagra ele este preito a um dos poetas que mais o marcaram e inspiraram, constituindo esta obra também um ponto de chegada do seu percurso de académico no âmbito dos estudos camonianos. O brilhante trajeto do autor enquanto escritor, crítico, investigador e docente universitário na Universidade Federal de Pernambuco é esboçado no final do volume numa súmula brevemente designada por “O autor”. Entre a atividade desenvolvida, refira-se ainda o facto de ter sido fundador e diretor das revistas Encontro, do Gabinete Português de Leitura do Recife, e Estudos Portugueses, da referida Universidade, participando ainda com diversas e díspares intervenções dentro e fora da instituição universitária, em projetos de extensão e pesquisa, bem como na colaboração sempre ativa em publicações de índole variada.

A enquadrar os ensaios abre-se o volume com uma “Nota prévia”, onde se expõem informações pertinentes para o esclarecimento das circunstâncias de composição e publicação dos textos aqui reunidos. Dois deles haviam já integrado uma plaquette editada em 2001 pela Associação de Estudos Portugueses Jordão Emerenciano, ostentando o mesmo título. Pelo facto, assume-se esta publicação como uma segunda edição, muito embora consideravelmente ampliada. Como denominador comum, resultam todos os textos nela incluídos por serem o resultado de idênticas conjunturas, ou seja, solicitações feitas para intervenções do autor em sessões solenes para comemorar o dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas no mundo.

Em “Camões, a pátria simbolizada” – texto datado de 1995 –, começa o autor por tratar da escolha da data do dia de Camões como dia de Portugal, passando em revista outras datas que poderiam eventualmente ter sido escolhidas para semelhantes comemorações, acabando por relevar a importância simbólica de Camões enquanto figura exemplar maior de um povo, da sua mundivisão e modo de sentir, muito particularmente numa época de esplendor, e enquanto seu maior representante no campo das letras. Como é dito, é o cantor do expansionismo, descobertas e conquistas, mas também quem medita sobre a rotina dos que permaneceram em terra. “Sob a ótica e a ética do Renascimento, a construção de um Império como projeto civilizacional […]” implicava “levar aos confins do mundo a civilização ocidental […]” enquanto “obra missionária, até porque significava, também, a expansão da Fé” (p. 20). Dessa herança, resulta hoje uma comunidade dispersa pelo globo, “tão espiritual quanto aquele [Império] preconizado por Vieira, o da comunhão com os povos, o da busca da modernidade, o da cultura, o de uma língua presente em toda a parte do mundo e que por isso é uma Pátria também” (p. 21). Por isso, o leitor é levado a entender o sentido das celebrações do 10 de Junho: “[…] não é uma data política ou uma data histórica em que se celebre o Estado português, é uma data simbólica (estou quase a dizer uma data sagrada) em que se celebra a Alma portuguesa na Alma e na obra do Poeta que a representa” (p. 19), porque assim como Luís de Camões “foi a síntese perfeita das tendências literárias do seu tempo, seria, também, a síntese única e em todos os tempos da nossa história cultural, de uma muito específica maneira de ser português” (p. 17).

O segundo texto, intitulado “Celebrar Camões, celebrar Portugal, o Brasil e a Língua Portuguesa” foi redigido num ano específico, em 2000, numa data em que às do Poeta e de Portugal se associavam as comemorações do descobrimento do Brasil. Arranca com uma notável citação de Vergílio Ferreira, autor da predileção do autor, de que é um especialista privilegiado, sobre o qual dissertou nas suas teses de Mestrado e Doutoramento: “ Da minha língua vê-se o mar”, que justamente considera poder ter sido proferida pelo Poeta celebrado. É este texto um ensaio profundo que pressupõe todo um conhecimento perspicaz da literatura e da história da cultura portuguesa, de Quinhentos aos nossos dias, e uma penetrante reflexão “sobre Camões, sobre as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, sobre o Brasil” (p. 25). É que da língua portuguesa se vê, ouve, fala e lê o mar de Portugal, do Brasil, de África e do Oriente, numa especificidade e universalidade dificilmente encontradas noutras línguas e culturas. Celebrar Camões impõe-se, assim, enquanto comemoração das pátrias lusófonas, de todos os poetas em língua portuguesa, de cada português e de todos os portugueses espalhados por cada canto do globo. Por conseguinte por mais variadas que tivessem sido as faces que lhe atribuíram, Camões, mais do que Poeta do Império e da ideologia expansionista, de que o Brasil era parte integrante embora de recente achamento, também foi o Poeta dos críticos, da censura do Velho do Restelo, contrapondo um Império da Fé e da Civilização amparado pela ética renascentista ao projeto mercantil em que se desvirtuara, assim como seria o “desamparado poeta do desamparo” – e todas essas faces fazem dele o Poeta espelho de outros poetas, independentemente das Pátrias donde são provenientes, mas que por causa delas, das respetivas ideias e desconcertos do mundo sofrem o exílio, a pobreza e a saudade (Cf. p. 29). Por isso, se configurou o mito camoniano, de modo particular no século XIX, assumindo a figura do Poeta o estatuto não só de tema literário, como também motivo inspirador de artistas plásticos.

Invocando a lúcida análise dos mitos e de Portugal levada a cabo por Eduardo Lourenço, ainda se recorda o uso feito da imagem de Camões enquanto poeta da raça, de matriz lógico-positivista, e consequente versão nacionalista; pelo Saudosismo; por Eça de Queirós, enquanto expressão da decadência do país; para chegar à imagem de um Poeta do Império de uma Língua e uma Cultura que ajudou a modernizar, enfim, um império espiritual de uma Comunidade de 200.000.000 de falantes de todos os quadrantes, ligados pelo mar. Por isso, era também do mar que Pêro Vaz de Caminha viu na nova terra descoberta, os homens, a amizade e a Fé – o testemunho fundador da futura comunidade luso-brasileira, construída com todos os defeitos e vícios que um processo de colonização implicava. Urgindo “compreender a História e os homens e as circunstâncias de que ela é feita”, interpela o autor aqueles que questionam esta perspectiva, de que o Brasil é a obra maior que o português criou, contrapondo a invocação de nomes como Anchieta, Manuel da Nóbrega e António Vieira – também este preconizador de um “Império sonhado, o da cultura, da civilização, do espírito, da Língua…” (p. 37) – como exemplos de supranacionais, dessa Comunidade construída com e pelo idioma de Camões. A esses junta ainda Pessoa, Sophia e Saramago; Alencar, João Cabral e Gilberto Freyre; Jorge Amado, Cardoso Pires e Guimarães Rosa; Baltasar Lopes, José Craveirinha, Mia Couto e Pepetela, além de muitos mais que se podiam enunciar. Por conseguinte, citando Vergílio Ferreira – “Camões instaura em nós uma imagem de nós, desenvolvendo todas as nossas virtualidades em que possamos rever-nos por inteiro” (p. 38) –, conclui que Camões é “um poeta que paira acima de todas e quaisquer circunstâncias da História, da política e das ideologias sejam quais forem os seus propósitos. Um poeta da Língua Portuguesa, um poeta do espírito de comunidade. É este o nosso Camões, o Camões que queremos” (p. 33).

“O amor dos deuses e dos homens: paixão, sensualidade e erotismo n’Os Lusíadas” dá o nome ao terceiro texto datado já de 2013. Partindo do pressuposto de que, “como tantas outras [obras] que o tempo, a tradição, a recepção e a alta qualidade estética tornaram clássicas, Os Lusíadas também se popularizaram entre erros e acertos, entre equívocos e reduções, entre simplificações e desvios de sentido” (p. 39), o autor do texto propõe a sua leitura, evidenciando que, além de um poema sobre viagens, guerras e conquistas, se trata de um poema do amor e sobre o amor (Cf. p. 41), “do amor dos homens e dos deuses e da representação da paixão, da sensualidade e do erotismo” (p. 41-42). E tudo isso enquadrado na mundivisão renascentista assim sumariamente condensada:

“A epopeia de Camões não se submete a reducionismos porque, como poema renascentista, aspira à totalidade, à universalidade, ao integral saber de todo o conhecimento da época, ao universal sentir de todos os sentimentos humanos. Por isso lá estão toda a ciência do tempo, e toda a técnica (sobretudo a das navegações), todo o conhecimento do homem, do mundo e do cosmos, toda a História, a tradição, a cultura, a religião, a filosofia, a literatura… por isso, na épica camoniana convivem em harmonia elementos tão aparentemente díspares como a História e a mitologia, a realidade e a lenda, o bélico e o amoroso na violência das guerras e na suavidade do amor.” (p. 41)

Se na obra maior do Poeta convivem estas facetas tão variadas, não admira que uma atenção especial seja dada ao humano, ao sentimento, ao amor, incluindo a sua vertente sensual e erótica.
Assim, começa-se por apontar a primeira manifestação de amor sensual e erótico na epopeia no plano superior das divindades mitológicas – o da sedução de Júpiter por Vénus, no concílio dos deuses –, pondo em evidência os encantos físicos da deusa. Os restantes episódios abordados são: o de Inês de Castro (Canto III); o do Adamastor (Canto V); e o da Ilha dos Amores (Cantos IX e X).

Se bem que o de Inês de Castro, no plano da História e do humano, seja equiparado a “um suave intermezzo” (p. 46), muito embora tingido pelas cores da tragédia, trata do amor humano, do espontâneo sentimento da paixão que não conhece razões de qualquer natureza. Tornando-se a pedra basilar do “mito inesiano”, do “mito do amor português”, imortalizado na literatura desde a morte da heroína até aos nossos dias, nele apenas veladamente chegamos às “razões ou desrazões da perdição amorosa de Pedro e Inês: as da beleza do corpo feminino” (p. 48), não se evidenciando detalhes relacionados “nem sensualidade, nem erotismo”, mas sim paixão avassaladora.
O episódio a seguir tratado, o do Adamastor, de novo no plano do mito e dos deuses, privilegia, sim, a sensualidade e o erotismo, desta vez castigados e não premiados pela audácia e ousadia do protagonista, mais até do que o amor-sentimento. Neste passo, além da convergência do plano histórico, com o simbólico e o mitológico, adensada pelas oposições patentes entre o belo e o grotesco, na violência da ameaça e predição dos desastres dirigidos aos navegadores e na sublimidade do sofrimento amoroso, todos os ingredientes bem podem contribuir para que este episódio se adeque à tradição do locus horrendus. Em contraposição a este, o da Ilha dos Amores, marcado pela plenitude de claridade apolínea, alegria de viver, satisfação dos sentidos e do conhecimento, é o prémio de Vénus, a recompensa aos esforçados navegantes. Num espaço configurado segundo os cânones do locus amoenus, a ilha apresenta-se com um lugar ideal, paradisíaco, de felicidade e alegria, onde a flora exuberante representa um constante convite à luxúria e prazer sensual. Pelo facto, se os navegadores ficam na expetativa de semelhante terra ser rica em caça, logo verificam tratar-se de ser estranha a “caça” encontrada. E a cena transforma-se na apoteose suprema do prazer dos sentidos, da alegria de viver, da plenitude sensual e erótica, no único momento em que deuses e homens se encontram e se relacionam. Por consequência, devido a esse caráter de puro paganismo e carga sensual e erótica, logo os censores ao longo dos tempos o classificaram de imoral e anticristão, mutilando o poema do pleno conhecimento do público leitor, não obstante, depois da descrição da “máquina do mundo”, se declarar que o pleno conhecimento é do verdadeiro Deus, que ninguém está em condições de entender, e os deuses pagãos apenas assumirem uma função simbólica com objetivos deleitosos.

Por último, “Camões, poeta e soldado: um homem entre as musas e as armas” foi o único texto do volume que não foi composto para ser apresentado no Gabinete de Leitura do Recife, mas a convite do Instituto Cervantes do Recife e da Fundação Artístico-Cultural Iberoamericana, no auditório do Museu Militar do Forte do Brum (Recife) em 2015. É o binómio das “armas” e das “letras”, de que o próprio Poeta é legítimo representante, que serve de ponto de partida para a reflexão aqui apresentada, na medida em que os estereótipos de “poeta” e de “soldado” parecem à primeira vista excluir-se ou pouco terem em comum. No entanto, no Renascimento, o modelo de homem idealizado pressupunha uma formação englobante, enciclopédica, que reunisse as qualidades de bravura e sensibilidade, em simultâneo com coragem, determinação e lealdade, associadas a cortesia, suavidade de trato e cultura. Vários são, pois, os nomes citados, quer do contexto português, quer do espanhol e até do brasileiro que o materializam de maneira exemplar. Tal modelo viria depois, no século XIX a ser recuperado e atualizado com o comprometimento dos intelectuais nas lutas liberais e de libertação dos povos. Contudo, o paradigma mais acabado deste tipo de escritor-soldado é o próprio Camões, que encontra em Espanha um paralelo na figura de Miguel de Cervantes Saavedra, pelo que uma breve biografia comparada se esboça, afim de mostrar que não só nos aspetos focados, mas até em momentos de adversidade se aproximam ambos os autores nos respetivos percursos de vida. A rudeza da carreira castrense não impedia que poetas, como Camões, fossem versados nas mais agudas subtilezas dos códigos líricos da época, como as que o neoplatonismo proporcionava para o tratamento do amor contemplativo. A par, exaltava-se a disciplina militar fundada na prática e na experiência do quotidiano, e ainda em díspares funções e missões. Por isso, quer na lírica, quer na épica camonianas, o conhecimento do mundo físico e humano emparelha com o domínio patenteado na exposição da técnica e da estratégia militar nas descrições de batalhas e recontros sangrentos e impetuosos. “Armas e letras”, “Sapientia et fortitudo” são, pois, dois eixos do ideal cortesão de Quinhentos, fundados no “honesto estudo, com longa experiência misturado” (p.76). Como tal, também, no Dom Quixote tal tema não poderia deixar de estar presente: no discurso sobre as armas e as letras”, dos capítulos XXXVII e XXXVIII, são esses os tópicos sobre os quais se disserta. No entanto, não como aspetos complementares, mas como suportes de modelos diversos, um como o fundamento da sensibilidade para o exercício das letras e outro como base da prática das armas, por sua vez o suporte do ideal de virilidade renascentista. Na linha do que expõe em todo o poema, não deixa de ser curioso, no entanto, que no final d’Os Lusíadas, o Poeta se apresente a si próprio, pelo saber intelectual, engenho e arte nos campos das letras e destreza no das armas, bem como pela experiência de vida, como modelo de cortesão e conselheiro perante o Rei D. Sebastião “ Pera servir-vos, braço às armas feito; / Pera cantar-vos, mente às Musas dada”.

À semelhança de tantos camonistas que reúnem em volumes de ensaios os seus trabalhos antes dispersos, nada falta a este volume para, honrada e brilhantemente, emparelhar com eles. Os assuntos, temas e tópicos acima apresentados surgem finamente analisados, explorados e expostos e decerto que os ouvintes que tais intervenções escutaram nos momentos celebrativos saíram delas mais ricos, mais sabedores e conhecedores da arrebatadora obra camoniana.

LIMITE, 186, VOL. 10.2, RESEÑAS/RECENSÕES CRÍTICAS, pp. 185-192.

“Auto da Barca do Inferno”, de Gil Vicente no GPL a 8 e 9 de novembro

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Num ancoradouro, dois barqueiros, um Anjo e um Diabo, aguardam passageiros que viajam para o outro mundo. Este é o pano de fundo para o quadro que Gil Vicente, dramaturgo da corte portuguesa no século XVI, vai desenhar da sociedade de então.

O Auto da Barca do Inferno e o Inferno anônimo (c. 1515) do Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, Portugal

Representado pela primeira vez em 1517, O “Auto da Barca do Inferno”, tem como ação o julgamento num cais, onde os juízes, um Anjo e um Diabo, discutem quem entrará na barca de cada um, condenando os seus passageiros à viagem para o Céu ou para o Inferno.

Por lá passa a representação de toda a sociedade portuguesa da época; desde o Fidalgo ao Parvo, figura recorrente da obra de Gil Vicente e, no final, o Diabo é quem leva mais passageiros na barca.

“Mestre de Retórica de Representação”, Gil Vicente foi contemporâneo dos Descobrimentos mas, ao contrário de Camões, que exaltou os feitos portugueses, fez antes uma crítica mordaz, na caricatura que construiu da sociedade portuguesa de então.

Dramaturgo na corte, onde viveu cerca de 35 anos, foi o homem de confiança da Rainha D.ª Leonor e, para além de escrever e encenar as suas peças, organizava também as Festas Reais.

Homem dos “sete ofícios”, julga-se que foi também ourives e Procurador dos Mistérios na Câmara de Lisboa. Gil Vicente foi consensualmente considerado o “pai” do Teatro português.

Kazuo Ishiguro vence Nobel da Literatura

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O mais recente Nobel da Literatura é o escritor nascido no Japão Kazuo Ishiguro e criado na Inglaterra. Após o anúncio polêmico de Bob Dylan no ano passado a Academia Sueca volta a surpreender.

Era difícil prever o Nobel deste ano, e qualquer quer fosse o escolhido a surpresa seria sempre grande pois os últimos vencedores não se enquadravam na diretiva deixada por Alfred Nobel. Para a Academia Sueca justifica-se o Nobel da Literatura devido a ter “nos seus romances uma força emocional muito grande, e ter revelado o abismo entre o sentido do ilusório e a sua ligação ao mundo“. Para a secretária permanente do Nobel da Literatura, Sara Danius, Ishiguro é um autor de grande integridade e absolutamente brilhante, com um universo estético muito próprio.

O anúncio surpreendeu pois, apesar do seu nome estar na lista de autores expectáveis, nunca esteve na primeira linha de potenciais vencedores. Entre os que primeiro parabenizaram Ishiguro pelo Nobel esteve Salman Rushdie, que não deixou de fazer uma piada sobre algumas semelhanças com Bob Dylan: “Ele toca guitarra e escreve canções também. Roll over Bob Dylan.” O escritor foi coautor de vários temas da cantora de Jazz Stacey Kent, entre outras atividades musicais.

Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki mas viveu a partir da sua adolescência na Inglaterra devido aos seus pais terem emigrado para esse país. Daí ser considerado um autor nipo-britânico. Tornou-se cidadão inglês em 1982. Antes de se dedicar à escrita, queria ser músico, mas não foi aceite por nenhuma editora a quem enviou as suas composições. A sua formação acadêmica foi nas universidades inglesas de Kent e East Anglia, licenciou-se em Inglês e Filosofia em 1978, tendo participado no curso de escrita criativa do escritor Malcolm Bradbury e Angela Carter, que terminou em 1980. Exerceu a docência e optou por ser, nas suas próprias palavras, “um escritor que deseja escrever novelas internacionais“.

A sua obra está traduzida em mais de três dezenas de países e o jornal The Times colocou-o como o autor mais importante, em 2008, no 32º lugar entre os 50 escritores Britânicos mais importantes desde 1945. Ishiguro é um dos escritores da literatura contemporânea que mais tem sido nomeado para os prémios Man Booker, quatro vezes, e venceu na edição de 1989 com o romance Os Despojos do Dia (The Remains of the Day).

Se tivermos em conta a sua origem japonesa, Kazuo Ishiguro sucede a um outro escritor desse país, Kenzaburo Oe, Nobel em 1994. Aliás, numa entrevista com Oe, Ishiguro afirmou que os cenários dos seus dois romances iniciais eram pura imaginação: “Em Inglaterra, onde cresci, mantive sempre uma imagem muito forte do meu país de origem, com o qual sempre tive uma ligação emocional“.

Nascido em 1954, viveu até 1960 no Japão. O seu nome significa pedra e preto. Os seus dois primeiros romances passam-se no seu país de origem, mesmo que sempre negasse grande proximidade com a literatura do país de origem, aonde só voltou em 1989. Numa entrevista um ano depois, referiu que se escrevesse sob pseudônimo ninguém encontraria referências a essa cultura. Ao referir a sua herança nipônica, Ishiguro fez questão de dizer: Eu não sou inteiramente inglês porque descendo de pais japoneses e vivi num lar onde se falava a língua japonesa“.

Fonte: DN

ICAN (Abolição de Armas Nucleares) vence Nobel da Paz

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O Comité Nobel norueguês decidiu distinguir uma campanha contra as armas nucleares, uma ameaça que nos últimos meses tem visto agravadas as suas tensões.

A Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (em inglês ICAN — International Campaign to Abolish Nuclear Weapons) foi distinguida com o Nobel da Paz de 2017. A organização não-governamental, que reúne grupos de uma centena de países, pretende proibir e eliminar este tipo de armamento.


A organização recebe esta distinção pelo seu trabalho na sensibilização para as consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares e pelos seus esforços revolucionários para promover uma proibição de tais armas por tratado”, declarou o Comité Nobel norueguês.

Este não é um prêmio controverso porque [a luta contra o armamento nuclear] é um objetivo comum“, defendeu a líder do Comité Nobel norueguês, Berit Reiss-Andersen, que anunciou o prêmio. “As pessoas não querem ser defendidas por armas nucleares“, disse.

A escolha da ICAN acontece num momento em que a Coreia do Norte multiplica ensaios nucleares e lançamentos de mísseis balísticos. Um dos nomes favoritos na corrida ao Nobel 2017 era a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, pelo seu papel na assinatura do acordo nuclear entre o Irão e seis grandes potências (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China, França e Alemanha), depois de 12 anos de negociações.

A organização já reagiu na sua página de Facebook, onde agradeceu e dedicou o prêmio “aos sobreviventes dos atentados atômicos de Hiroshima e Nagasaki e vítimas de explosões de testes nucleares em todo o mundo”.

Este prêmio é uma homenagem aos esforços incansáveis de muitos milhões de ativistas e cidadãos preocupados em todo o mundo que, desde o início da era atômica, protestaram fortemente contra armas nucleares”, defendendo que estas armas “não servem um propósito legítimo e devem ser banidas para sempre”.

A organização recorda o primeiro tratado de sempre que proíbe armas nucleares, assinado por mais de uma centena de países a 7 de Julho deste ano. Na votação, 122 países votaram a favor, a Holanda votou contra e Singapura absteve-se.

Nenhum dos nove países com armas nucleares – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, Israel, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte – participou nas negociações. Até o Japão, único país alvo de um ataque atômico, em 1945, boicotou as negociações, assim como a maioria dos países da NATO, incluindo Portugal.

O tratado proíbe categoricamente as piores armas de destruição em massa e estabelece um caminho claro para sua eliminação total. É uma resposta à preocupação cada vez maior da comunidade internacional de que qualquer uso de armas nucleares causaria danos catastróficos, generalizados e duradouros às pessoas e ao nosso planeta”, lê-se no comunicado.

Este é um momento de grande tensão global, quando a retórica ardente poderia muito facilmente nos levar, inexoravelmente, a um horror indizível. O espectro do conflito nuclear aparece mais uma vez. Se alguma vez houve um momento para que as nações declarassem a sua oposição inequívoca às armas nucleares, esse momento é agora”, sublinha a organização.

Esta não é a primeira vez que a Academia se preocupa com a questão do nuclear. Já em 2005, o Nobel da Paz foi atribuído à Agência Internacional de Energia Atômica e ao seu diretor, Mohamed ElBaradei. Também em 1995, o Comité tinha atribuído a mesma distinção ao movimento anti-nuclear Pugwash (fundado no Canadá) e ao seu fundador, Joseph Rotblat.

Momentos após o anúncio, o site da ICAN registou problemas no acesso. A organização não-governamental sucede ao Presidente colombiano Juan Manuel Santos na lista de premiados do Nobel da Paz.

Entre as mensagens de felicitações, está a de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. O diplomata sublinhou que “mais do que nunca, precisamos de um mundo sem armas nucleares“.

Este ano, o Comité Nobel norueguês recebeu 318 candidaturas.

Liliana Borges em O Público a 6 de Outubro de 2017