ICAN (Abolição de Armas Nucleares) vence Nobel da Paz

6 de outubro de 2017 Notícias

O Comité Nobel norueguês decidiu distinguir uma campanha contra as armas nucleares, uma ameaça que nos últimos meses tem visto agravadas as suas tensões.

A Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (em inglês ICAN — International Campaign to Abolish Nuclear Weapons) foi distinguida com o Nobel da Paz de 2017. A organização não-governamental, que reúne grupos de uma centena de países, pretende proibir e eliminar este tipo de armamento.


A organização recebe esta distinção pelo seu trabalho na sensibilização para as consequências humanitárias catastróficas de qualquer uso de armas nucleares e pelos seus esforços revolucionários para promover uma proibição de tais armas por tratado”, declarou o Comité Nobel norueguês.

Este não é um prêmio controverso porque [a luta contra o armamento nuclear] é um objetivo comum“, defendeu a líder do Comité Nobel norueguês, Berit Reiss-Andersen, que anunciou o prêmio. “As pessoas não querem ser defendidas por armas nucleares“, disse.

A escolha da ICAN acontece num momento em que a Coreia do Norte multiplica ensaios nucleares e lançamentos de mísseis balísticos. Um dos nomes favoritos na corrida ao Nobel 2017 era a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, pelo seu papel na assinatura do acordo nuclear entre o Irão e seis grandes potências (Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, China, França e Alemanha), depois de 12 anos de negociações.

A organização já reagiu na sua página de Facebook, onde agradeceu e dedicou o prêmio “aos sobreviventes dos atentados atômicos de Hiroshima e Nagasaki e vítimas de explosões de testes nucleares em todo o mundo”.

Este prêmio é uma homenagem aos esforços incansáveis de muitos milhões de ativistas e cidadãos preocupados em todo o mundo que, desde o início da era atômica, protestaram fortemente contra armas nucleares”, defendendo que estas armas “não servem um propósito legítimo e devem ser banidas para sempre”.

A organização recorda o primeiro tratado de sempre que proíbe armas nucleares, assinado por mais de uma centena de países a 7 de Julho deste ano. Na votação, 122 países votaram a favor, a Holanda votou contra e Singapura absteve-se.

Nenhum dos nove países com armas nucleares – Estados Unidos, Rússia, Reino Unido, França, Israel, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte – participou nas negociações. Até o Japão, único país alvo de um ataque atômico, em 1945, boicotou as negociações, assim como a maioria dos países da NATO, incluindo Portugal.

O tratado proíbe categoricamente as piores armas de destruição em massa e estabelece um caminho claro para sua eliminação total. É uma resposta à preocupação cada vez maior da comunidade internacional de que qualquer uso de armas nucleares causaria danos catastróficos, generalizados e duradouros às pessoas e ao nosso planeta”, lê-se no comunicado.

Este é um momento de grande tensão global, quando a retórica ardente poderia muito facilmente nos levar, inexoravelmente, a um horror indizível. O espectro do conflito nuclear aparece mais uma vez. Se alguma vez houve um momento para que as nações declarassem a sua oposição inequívoca às armas nucleares, esse momento é agora”, sublinha a organização.

Esta não é a primeira vez que a Academia se preocupa com a questão do nuclear. Já em 2005, o Nobel da Paz foi atribuído à Agência Internacional de Energia Atômica e ao seu diretor, Mohamed ElBaradei. Também em 1995, o Comité tinha atribuído a mesma distinção ao movimento anti-nuclear Pugwash (fundado no Canadá) e ao seu fundador, Joseph Rotblat.

Momentos após o anúncio, o site da ICAN registou problemas no acesso. A organização não-governamental sucede ao Presidente colombiano Juan Manuel Santos na lista de premiados do Nobel da Paz.

Entre as mensagens de felicitações, está a de António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. O diplomata sublinhou que “mais do que nunca, precisamos de um mundo sem armas nucleares“.

Este ano, o Comité Nobel norueguês recebeu 318 candidaturas.

Liliana Borges em O Público a 6 de Outubro de 2017